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Escolas do DF com boa média no Enem listam estratégias de sucesso

Atividades extras e ensino em tempo integral são trunfos, afirmam diretores.
G1 usou Enem 2013 como base; para subsecretário, nota não é parâmetro.

Com 456 mil alunos e 18,9 mil professores distribuídos em 632 escolas (hoje são 657), o Distrito Federal investiu R$ 10,9 mil por estudante em 2013. Mesmo com o maior aporte individual do país, os resultados das avaliações não acompanharam a dinâmica financeira. O DF ficou abaixo da meta nos Índices de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2013 para o fim do ensino fundamental e para o ensino médio. No Enem do mesmo ano, a escola distrital com melhor nota ficou em 66º no quadro local e na 4254ª posição nacional.

Considerando apenas o cenário interno, o quadro ainda apresenta disparidades. O G1visitou as escolas com melhor desempenho no Enem 2013 para conhecer as estratégias que deram certo e saber o que ainda falta para entrar na “disputa” nacional. A escolha levou em conta a média nas provas objetivas, já que o Inep não divulgou a nota agregada dos colégios na última edição.

Segundo os diretores dos colégios, projetos pedagógicos, iniciativas para arrecadar dinheiro e atividades extracurriculares são alguns dos elementos que podem fazer a diferença. A educação em período integral e a integração entre alunos e professores também são mencionados como trunfos pelos gestores.

Diretor do Centro de Ensino Integrado à Educação Profissional do Gama, Ariomar Nogueira (Foto: Mateus Rodrigues/G1)Diretor do Centro de Ensino Integrado à Educação
Profissional do Gama, Ariomar Nogueira
(Foto: Mateus Rodrigues/G1)

Ensino combinado
Única escola do DF a oferecer educação integral e técnica, o Centro de Ensino Médio Integrado (Cemi) do Gama registrou a maior média na prova objetiva do Enem de 2013 entre as unidades do GDF. Com 480 vagas distribuídas nas três séries do ensino médio, o colégio faz uma pré-seleção para admitir os novos alunos.

“Durante as provas, a demanda chega a 11 pessoas por vaga. É quase um vestibular. Não acho interessante, mas é necessário porque somos a única com este modelo”, afirma o professor de eletrônica Ariomar da Luz Nogueira, na escola desde 2006 e há dois anos como diretor. Segundo ele, cada aluno “custa”, pelo menos, 50% a mais do que no sistema tradicional.

Como parte dos “projetos pedagógicos”, a escola promove visitas ao Museu do Cerrado, em Goiânia, a Pirenópolis e à Chapada dos Veadeiros. Segundo Nogueira, a programação faz com que “os alunos vejam os professores como pessoas, fora da escola, e não só como professor dentro de sala”. Os alunos que não podem pagar as viagens contam com a ajuda dos colegas em rifas e atividades de arrecadação.

“Temos muitos alunos com situação financeira complicada, mas o interesse se sobrepõe. Não é porque o aluno é pobre que será incapaz de aprender, diz Nogueira. Além das aulas de informática e eletrônica, que compõem o currículo do ensino técnico, os estudante têm acesso a projetos de música, dança, teatro, administração e iniciação científica. “Ciência de verdade, não é só reproduzir trabalho da internet”, afirma o diretor.

Em um desses projetos, um grupo de estudantes desenvolveu um programa de computador para ensinar braille a não cegos. O trabalho recebeu menção honrosa da Unesco e foi apresentado em feiras em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Um convite para apresentar o programa em Trujillo, no Peru, foi declinado por falta de verbas.

Alunos de ensino técnico no Gama usam máquinas de 2001 para aulas de informática (Foto: Mateus Rodrigues/G1)Alunos de ensino técnico no Gama usam máquinas de 2001 para aulas de informática e eletrônica
(Foto: Mateus Rodrigues/G1)

Em 2012, quando recebeu investimento maior, o Cemi ficou entre os 25 melhores colégios do DF no Enem. Com apenas R$ 5 mil para investir em 2013, o rendimento caiu. A maior parte dos cerca de 15 laboratórios não está bem equipada. Na sala de montagem de máquinas, os alunos lidam com computadores Pentium III, produzidos entre 1999 e 2002.

“Esse estudante consegue montar uma máquina atual? Precisamos de mais oito osciloscópios [aparelhos para visualizar a tensão elétrica], cada um custa R$ 5 mil. Não posso me nivelar por baixo, deixar de buscar recursos porque existem escolas com quadro crítico. Minha função é achar solução para o colégio”, diz Nogueira.

Poder dos projetos
No Centro Educacional 4 do Guará, problemas na fiação elétrica marcam o início do ano letivo previsto para esta segunda (2). Os telefones não funcionam e as reformas não foram contempladas no mutirão promovido pela Secretaria de Educação. Segundo a diretora da unidade, Renata Moura, as verbas para manutenção não chegam desde 2013.

“Trabalhamos sem dinheiro, mas conseguimos patrocínio, bazar, um pouco de ajuda dos pais. É o dinheiro para complementar um lanche, fazer uma manutenção”, diz. Mesmo com instalações precárias, a diretora afirma investir na coordenação de professores e na pedagogia de projetos como forma de garantir o bom desempenho dos alunos.

Diretora do Centro Educacional 04 do Guará, Renata Moura (Foto: Mateus Rodrigues/G1)Diretora do Centro Educacional 04 do Guará,
Renata Moura (Foto: Mateus Rodrigues/G1)

Gincanas, festivais culturais, aulas de reforço e disciplinas ministradas por alunos de graduação da UnB (em uma parceria mediada pela Capes) são citadas por Renata como verdadeiros trunfos da escola, conhecida como “Centrão” na região administrativa. Além disso, a participação crescente dos pais pode ser uma nova aliada no avanço acadêmico dos estudantes, na visão dela.

O colégio é um dos 41 da rede pública que adotaram a semestralidade, método que separa a grade de disciplinas em blocos temáticos. “Abraçamos essa divisão. Para o aluno do primeiro ano, é mais difícil, mas depois facilita. Exceto por português, matemática e educação física, as outras disciplinas são divididas em blocos. Um é ministrado no primeiro semestre e outro no segundo”, explica.

A coordenação pedagógica da escola, segundo Renata, atua interligando os conteúdos. O resultado são provas e projetos interdisciplinares. “É um trabalho de formiguinha, mas que começa a dar frutos”, diz a gestora. Com os estudos concentrados em uma área por vez, ela espera incrementar a atenção e o aprendizado dos alunos. O resultado só poderá ser aferido em 2016, quando os alunos completam o primeiro ciclo de ensino médio pela nova grade.

Cobrança e compromisso
Diretora do Centro de Ensino Médio Setor Leste nos últimos sete anos, Ana Lúcia Marques diz reconhecer a fama de “linha dura” que o colégio recebeu. Segundo ela, é justamente o engajamento de alunos e professores que faz a diferença e garante bons resultados nas avaliações nacionais.

“O aluno vem para cá querendo dar continuidade aos estudos. Quem ‘cai’ aqui e não tem essa intenção sai, porque acha que a escola é puxada, cobra muito. Não é uma escola preparatória, mas o foco é realmente levar o aluno ao ensino superior”, diz. A metodologia de projetos também é valorizada, segundo ela, porque “torna o aluno coautor do seu aprendizado”.

Fachada do Centro de Ensino Médio Setor Leste, na L2 Sul (Foto: Mateus Rodrigues/G1)Fachada do Centro de Ensino Médio Setor Leste, na L2 Sul (Foto: Mateus Rodrigues/G1)

No papel, o CEM Setor Leste não oferece educação integral – segundo a diretora, por problemas na burocracia para fornecer o almoço. Na prática, ela garante que os alunos passem o dia na escola praticando atividades físicas, recebendo aulas de reforço, usando os computadores e a biblioteca. “No primeiro dia do ensino médio, já perguntamos: que curso você vai escolher? Se ele não tiver um, percebe que já está atrasado”..

Com uma estrutura física de boa qualidade, Ana Lúcia afirma que o principal déficit da escola é na área de recursos humanos. “Falta professor, secretário, funcionário de apoio, de mecanografia. O [apoio] financeiro, mas chega de uma forma ou de outra pelo governo federal e pelo GDF”, diz.

Segundo a diretora, todas as escolas da rede têm os mesmos problemas, mas escolhem lidar com eles de maneira diferente. “A gente recebe o mesmo dinheiro e os mesmos professores que todo mundo. Tenho gente com atestado, gente que não gosta de trabalhar, mas a gente estabelece uma crença no projeto”, diz Ana Lúcia. Com 1,7 mil alunos e 42 turmas em uma área de 75 mil metros quadrados, ela foge do estigma de “escola rica”.

“Somos um colégio no centro da capital, então acham que somos ricos. Temos alunos extremamente carentes. Agora, se a família quer apenas o diploma para o filho, ela coloca numa escola perto de casa, não liga se tem professor porque ele vai passar de ano de qualquer jeito. Se a família manda o filho até aqui é porque tem uma intenção”, afirma. A escola não abre vagas há quatro anos, e recebe apenas alunos de escolas “tributárias” que firmaram parcerias.

Amor e cidadania
Do outro lado da Asa Sul, a diretora do Centro de Ensino Médio Setor Oeste atribui o sucesso do colégio nas avaliações a critérios mais subjetivos. “O que faz a diferença é amor, eu não sei nem te explicar. É a vontade de trabalhar, de mostrar que o ensino público pode ter qualidade. São os nossos professores, que conseguem incentivar e motivar os alunos”, afirma Ana Maria Gusmão, que trabalha há sete anos na unidade.

Segundo ela, a preocupação do ensino não está no preparo para a faculdade, mas no preparo para a vida. “Estamos formando cidadãos responsáveis, adotando os temas da sustentabilidade, da diversidade, do respeito às diferenças. É um trabalho de toda a rede pública, com recurso ou sem recurso”. Com 1,4 mil alunos para formar, o colégio também utiliza os projetos pedagógicos para fixar o conteúdo de sala de aula.

Alunos do Setor Oeste protestam por professores de laboratório  (Foto: Scarlett Chies/Reprodução)Em julho, alunos do Setor Oeste protestaram por professores de laboratório (Foto: Scarlett Chies/Reprodução)

Ana Maria reclama da falta de autonomia para gerenciar os investimentos. “As verbas chegam, mas demoram. Se tivéssemos agilidade e autonomia, sem comprometer a transparência, ajudaria mais.” Por causa da estrutura antiga e do grande número de estudantes, a escola não tem condições de migrar para a educação em tempo integral, mas faz parcerias com instituições privadas e centros de ensino do GDF para ampliar as oportunidades dos alunos.

A professora assumiu o comando do colégio em 2014 e diz que as melhorias começaram antes, com uma mudança de atitude. “O pulo do gato foi quando decidimos que iriamos colocar os alunos de escola pública nas universidades federais. Dissemos: ‘vocês não são piores que ninguém, a gente não faz feio frente a ninguém. Vamos dar as condições e vocês vão entrar com o trabalho’.”

Passos lentos
O subsecretário de Educação Básica do DF, Gilmar Ribeiro, endossa as iniciativas levantadas pelos diretores entrevistados pelo G1. Os projetos, explica ele, ficam a critério de cada unidade mas precisam estar de acordo com o currículo padrão. Por uma diretriz do Ministério da Educação, até 30% da carga horária das escolas públicas pode ser direcionada às atividades e aos projetos criativos.

Ribeiro diz considerar um “equívoco” o uso das médias do Enem, do Ideb e de outras avaliações nacional como índice para medir o desempenho das escolas. “Há colégios particulares que têm a vertente de preparação para vestibular. A escola pública não tem tempo e não pode pagar professor para isso”, defende.

Segundo o subsecretário, a expansão do ensino em tempo integral ainda é um desafio. Para dobrar o tempo do aluno na escola, é preciso dobrar a estrutura ou reduzir pela metade o volume de estudantes – alternativas inviáveis frente ao déficit público do DF. “Ou você usa instalações públicas, centros da própria secretaria, escolas parques”, diz, reconhecendo que ainda são poucas as opções na capital.

Ex-professor de ensino médio, ele diz que lidava com 500 alunos em um único turno quando lecionava no Guará. Segundo a subsecretaria de Planejamento da Secretaria de Educação, 328 das 657 escolas (50%) já implementaram o ensino integral. A meta é adicionar 12 escolas por ano e chegar a 60% até 2019.

“Não dá para fazer da noite pro dia, universalizar a educação integral em um ano. Mas com planejamento e previsão orçamentária, é possível ir ampliando”, diz Ribeiro. Ele afirma que a equalização de oportunidades é uma meta difícil. “Nossa tarefa é dar todo o apoio às escolas. Aquelas com mais dificuldade precisam de mais energia, mais atenção. Para as que estão indo bem, continuam no nosso radar, mas com um sentido de manutenção”.

 

Fonte: G1

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Sobre Edson Henrique

Formado pelo CEMI, forjado nas batalhas da primeira turma da escola, Empreendedor na Worda Studios, Arquiteto de Software, Entusiasta do Aprendizado, Fotógrafo e algumas outras coisas nas horas vagas. Gosto de experiências!

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